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O livre-arbítrio no casal

 

Entre individualidade e espaço comum

 

Antes de sermos dois, somos um. Cada um de nós traz consigo preferências, desejos, valores, crenças, mas também medos e traumas que influenciam as suas escolhas. O livre-arbítrio é a base do nosso equilíbrio individual. Temos o direito de tomar decisões quanto à nossa pessoa, sejam elas sobre o estilo do nosso vestuário, os nossos amigos, a nossa carreira, os nossos hobbies, os nossos desejos ou qualquer outro aspeto da nossa vida.

 

No entanto, é da nossa livre vontade que entramos na relação. Dedicar-se a ela significa respeitar a nossa decisão. Ter consciência de que o nosso livre-arbítrio é por vezes condicionado pelo do outro, aceitar que as suas escolhas tenham um impacto sobre nós e vice-versa é um bom começo para avançarmos em conjunto. No espaço comum que é a relação, as nossas liberdades individuais colidem, entram em conflito quando alimentadas pelo receio de perdermos a nossa identidade. Contudo, é neste equilíbrio delicado que surge uma outra vontade: a do casal.

 

Esse espaço partilhado constrói-se com decisões conjuntas, desde grandes projetos (formar uma família, mudar de casa) até escolhas do quotidiano (um restaurante, a cor da sala de jantar).

 

Para que os nossos livres-arbítrios coexistam de forma harmoniosa, a relação deve assentar na confiança e na igualdade. Temos a responsabilidade de criar um espaço estável, seguro, onde é possível pensar no "nós" sem perder de vista o "eu".

 

Acordo, concessão e sacrifício

 

Uma relação saudável baseia-se no respeito mútuo, que se traduz por acordos conscientes.

 

  • Um acordo consiste em encontrar um ponto de concordância, onde ambos dão um passo.
     

  • Uma concessão, por outro lado, implica uma renúncia unilateral, muitas vezes para evitar conflito.
     

  • O sacrifício, por fim, é um desequilíbrio crónico, em que um dos parceiros assume o esforço de forma constante.
     

Distinguir estas noções exige lucidez e um bom conhecimento de si próprio. As nossas reações ao livre-arbítrio do outro são por vezes influenciadas por feridas do passado, em vez de guiadas pelos nossos valores morais. É fácil confundir-las quando ouvimos os nossos medos.

 

A gratidão e a empatia podem ajudar a reconhecer esses padrões. Implica valorizar os esforços de cada um, assim como agradecer sempre que um acordo é encontrado ou quando o nosso parceiro aceita algo de boa vontade.

 

E, se percebemos que repetimos muito "obrigado", talvez seja tempo de inverter a tendência. Não gosto especialmente da ideia de uma lista ou de atribuir pontos, mas, seja qual for a forma, devemos verificar que a dinâmica da relação é justa, e que cada um se sente ouvido e respeitado.

 

Os perigos da codependência

 

Pode ser tentador deixar que o parceiro tome todas as decisões do casal ou numa determinada área. Afinal, confiamos plenamente nele e, por vezes, parece conhecer-nos melhor do que nós mesmos. Todos os casais seguem uma organização que lhes é própria: um trata do carro, o outro dos papéis, um vai às compras e o outro limpa a casa. Não tem mal nenhum nisso se for algo ocasional ou se os dois se satisfizerem com isso, mas o risco é caminhar para uma forma de dependência que, com o tempo, pode enfraquecer o vínculo.

 

Mesmo que um dos parceiros seja mais reservado ou benevolente, a liderança não deve ser assumida pelo outro. A colaboração, o trabalho de equipa devem ser o motor da relação.

 

Quando as escolhas do outro nos afetam

 

O que fazer quando as decisões do nosso parceiro nos afetam de forma negativa ? Ou quando sentimos que pode estar a cometer um erro? Devemos nos pronunciar?

 

É essencial manter abertura e honestidade. Falar do que sentimos, mas sem impor a nossa visão das coisas permite um diálogo construtivo. Por que não tentar usar o “eu” para explicar os nossos medos, as nossas dúvidas e evitar assim cair na acusação e na crítica? Se uma decisão é importante para o nosso parceiro, aceitá-la é um sinal de confiança. Afinal, o que hoje parece errado pode ser numa vitória amanhã. Ao apoiar as escolhas do outro, abrimos o caminho à reciprocidade, e fortalecemos a relação.

 

O casal, um entrave à liberdade individual?

 

Para alguns, o casal é visto como um obstáculo à sua liberdade individual. Valorizam as vantagens da relação — o apoio, a intimidade, a cumplicidade — mas receiam as exigências e ajustes que esta implica. A ideia de ‘prestar contas’ ou considerar a opinião do outro pode-lhes parecer um entrave à sua evolução pessoal. Esta atitude decorre geralmente da falta de confiança— em si mesmo ou no parceiro — alimentada pelo medo de ser julgado ou limitado nas suas escolhas.

 

Embora seja irrealista querer moldar a relação, guardando apenas aos lados positivos, essa insegurança merece atenção. Convida-nos a refletir sobre as nossas reações perante as opiniões por vezes contrariantes do nosso parceiro. Será que caímos facilmente na crítica ou mostramos má vontade? Quando acontece, é importante perceber porque nos protegemos dessa forma. O que desperta em nós? Diria que, provavelmente vivenciamos a mesma insegurança que sentimos no outro.

 

Pode ser difícil inverter esta dinâmica, porque a confiança foi minada aos poucos, mas é sempre possível, com o diálogo, alguma paciência e introspeção, despertar as consciências.

 

Separação: a pedra-angular do livre-arbítrio

 

Se a relação trouxer apenas constrangimentos e frustrações, ou se a vida nos chamar para outro caminho, é legítimo optar pela separação. Esta decisão, apesar de dolorosa, deve ser respeitada, entendendo-se que não existe culpado nem vítima, e que a mesma pode ser uma oportunidade de crescimento para ambos.

 

Por outro lado, decidir permanecer na relação é também um reflexo do nosso livre-arbítrio. Significa que, apesar dos desafios e incompreensões, consideramos que o amor, o carinho e o apoio mútuo superam os obstáculos.

 

Amar é acolher o outro na sua singularidade, aceitando as suas mudanças e as suas evoluções enquanto ser humano. É enfrentar também o medo de o perder, enquanto renunciamos ao controlo sobre ele mesmo ou sobre a sua vida.

 

No casal, a única solução plausível perante o livre-arbítrio do parceiro, quando esse nos impacta de forma negativa, é o desapego.

 

Viver plenamente a relação

 

Viver uma relação consciente, abraçando tanto as suas forças quanto as suas fragilidades, exige coragem, a coragem de afirmar as nossas escolhas e de aceitas as do parceiro. Devemos lembrar que o casal não cresce quando rodeado de felicidade, mas sim ao superar dificuldades. Cada desafio que atravessamos juntos melhora a nossa capacidade de adaptação.

 

Acordo, concessão ou sacrifício:

 

  • Recordas algum momento em que sentiste o teu livre-arbítrio desrespeitado na relação? Se sim, lembra as emoções que sentiste?
     

  • Revive essas sensações sem julgamento, aceitando-as plenamente.
     

  • Quando a paz regressar dentro de ti, associa-lhes uma palavra: acordo, concessão ou sacrifício.
     

  • Se identificares ‘sacrifício’ ou ‘concessão’, reflete um instante. Será que que calaste quando querias falar? Se foi o caso, esperavas algo em troca? Um reconhecimento, um carinho ou talvez reciprocidade? Sentiste medo de perder o outro?
     

  • Se a palavra ‘acordo’ te vier, felicita-te: isso indica harmonia na relação.
     

  • Se sentires que o desequilíbrio vem do parceiro, reflete sobre o assunto e tenta abordar esse problema com ele.
     

Lily Blue
 

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