
Amar torna-nos vulneráveis, por isso pedimos vulnerabilidade em troca, transparência, emoção com fartura. Parece-nos ser o caminho para construir uma confiança mútua e uma relação autêntica. No entanto, se o sentimento nos preenche, também nos pode magoar, especialmente quando amamos pelas razões erradas. Não falo de "pessoas erradas" propositadamente, pois a emoção nasce primeiro em nós, das nossas falhas e feridas, do que somos de verdade por detrás das nossas máscaras. Está na altura de assumirmos essa plena responsabilidade.
Amar não está isento de perigo para a personagem que mostramos ao mundo, aquela que procura validação ou que por vezes assume o papel de vítima. Ao abrirmos o nosso coração, expomos o nosso verdadeiro eu e até mesmo a nossa alma, esse lugar onde se escondem as nossas feridas, assim como os nós cármicos e os conflitos transgeracionais.
Dizer "amo-te" não é gratuito. Deveria ser, reconheço. Talvez seja o caso entre pais e filhos, por exemplo. Mas, na maioria das vezes, esta frase, que presume ser uma entrega ao outro, carrega-se de questionamentos e exigências. Projetamos nela as nossas feridas e expectativas. Perde, então, a sua força, colidindo com essas partes de nós que não queremos encarar. De certa forma, encerra a relação num ideal muito distante da realidade. Não estar pronto para conflitos, desafios, para se pôr em causa, é não estar pronto para ver e aceitar o outro tal como é.
Contudo, "amo-te" nasce de sentimentos muito positivos, é altruísta, empático e compreensivo. É o vermelho das rosas e dos corações, o champanhe dos jantares a dois, a corrida desenfreada das comédias românticas. São também as palavras ternas e apaixonadas ditas na intimidade e, por vezes, a mão que segura a nossa nos corredores dos hospitais.
Cada um terá a sua ideia, a sua definição, e, por isso, as suas próprias expectativas que, por detrás desta frase, exigem satisfação.
Perceber melhor o que nos leva a declarar-nos ao outro, abriga-nos a deixar primeiro o sentimento viver em nós. Sentir as emoções, sejam positivas ou negativas, aceitá-las plenamente possibilita identificar as nossas falhas e, talvez, iniciar o nosso processo de cura. Sem as julgar ou nomear, basta deixá-las atravessar-nos, sem permitir, no entanto, que assumam o controlo.
Que esperanças escondes por detrás dos teus "amo-te"? Que alegrias, que dores? Estas palavras nascem de um impulso do coração? Que vibração, que sabor têm na tua língua? Se um amor profundo preenche cada partícula do teu ser, então parabéns. Conseguiste o que poucos conseguem alcançar. Mas se uma sombra, mesmo ínfima, penetra em ti porque a resposta demora, talvez valha a pena observar melhor. Temos de admitir: a maioria das pessoas, declara-se para ouvir o outro dizer “eu também”. O nosso “amo-te” deixa de ser uma afirmação, tornando-se uma necessidade, uma necessidade que não aprendemos a preencher sozinhos.
No casal, esse turbilhão de emoções expressa-se das mais variadas formas, com gestos românticos e outros nem tanto. Existem tantas maneiras de amar quanto maneiras de mostrá-lo: trocar um pneu furado, preparar o jantar, ver um filme que não nos agrada assim tanto, acampar quando o odiamos fazê-lo (e sem reclamar!). A lista é longa e subjetiva. Alguns só o exprimem com presentes, como se apenas o sentimento na sua forma material, visível e palpável, fosse real, como se o que têm dentro de si não fosse tão belo, ou tão valorizador, ou como se não soubessem como mostrá-lo. Talvez, para essas pessoas, o valor do amor ainda seja proporcional ao do dinheiro gasto.
Diria que, enquanto o sentimento for sincero e não procurar prender nem dominar, devemos aceitar as suas diferentes formas de expressão. Devemos aprender a reconhecê-las, praticando a gratidão. Não nos cabe julgar o que vem do coração, mas simplesmente acolhê-lo e responder da melhor forma.
Para além dos gestos e das palavras, o sentimento amoroso expõe-nos à uma paleta de emoções: ternura, proteção, mas também frustração, raiva, desejo e ciúme, sendo o último patamar a aceitação, de nós próprios, do nosso parceiro. Isso exclui qualquer abnegação ou sacrifício, pois não se trata de nos diminuirmos para preencher o outro.
Devemos evitar também cair no excesso inverso, o do ego. Amar-nos mais, respeitarmo-nos mais, fazer valer as nossas opiniões em detrimento das dos outros não será isento de consequências. Talvez seja o melhor caminho para ficar sozinhos, pois erguemos à nossa volta, e sem nos aperceber, muralhas de proteção. Tudo é uma questão de equilíbrio. Procurar a plenitude na aceitação e no amor próprio é um belo objetivo, mas a felicidade pessoal assenta também na presença, ao nosso lado, de pelo menos mais alguém para amar.
E tu, para além das palavras, como amas? Como gostarias de ser amado(a)?

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