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A confiança no casal

 

A confiança funciona como uma rede de segurança nas relações humanas, permitindo a abertura ao outro, sem receio de sermos julgados, rejeitados ou traídos. Na união entre duas pessoas, é a crisálida onde a intimidade e o amor se podem desenvolver.

 

Uma relação saudável e sincera faz-nos sentir seguros, desde que estejamos certos da dedicação e do respeito do nosso parceiro. A confiança é, portanto, sinónimo de compromisso mútuo e de partilha.

 

 

No casal, o seu papel é essencial, razão da sua presença nos votos de casamento, onde prometemos "fidelidade" e amar-nos "na saúde, na doença ou na pobreza". Esse acordo, mesmo tácito, mantém-se na maioria das uniões livres

 

As três dimensões da confiança

 

A confiança, essencial para a nossa evolução pessoal, assenta em três pontos interligados:

 

  1. A confiança em nós próprios:

 

Alimenta a nossa força interior, mesmo quando é parcial ou vacilante. Podemos duvidar de nós, em certos aspetos — características físicas, inteligência ou a nossa capacidade em nos conectarmos aos outros — mas compensamos essas fragilidades valorizando as nossas qualidades. Com o tempo e algum trabalho introspetivo, é possível acreditarmos plenamente em nós e até aceitarmos essas "falhas" que antes víamos.

 

  1. A confiança no outro:

 

Mesmo os mais desconfiados mantêm um grau de abertura. Sem ele, relacionarmo-nos com os outros seria quase impossível. A confiança faz parte da nossa natureza social, uma vez que dependemos uns dos outros para sobreviver e evoluir.

 

  1. A confiança na vida:

 

A fé em Deus, no Universo ou numa força superior sustenta a esperança de que tudo acaba por se resolver. Perante tempestades existenciais, alimenta a nossa resiliência e ajuda-nos a seguir em frente.

 

A função no casal:

 

Perante os desafios, essas três vertentes criam uma dinâmica que fortalece o vínculo e promove a resiliência entre os parceiros. Embora a sua dimensão mais sagrada possa parecer fora de contexto, esta oferece uma estabilidade emocional que outros aspetos da relação não proporcionam. Os sentimentos e as emoções estão sujeitos a variações. Com o tempo, o cansaço e o stress afetam a sexualidade. Por vezes, falta-nos a paciência ou a abertura.

 

Essas flutuações integram os ciclos naturais da relação, que são influenciados pelo nosso estado de espírito, pela vida profissional ou familiar. Acreditar em nós e no outro ajuda-nos a aceitar esses contratempos.

 

As flutuações da confiança

 

Contudo, quando o sentimento de segurança vacila, as fundações da relação enfraquecem. Se a confiança une o casal, a desconfiança provoca afastamentos, por vezes, irreversíveis.

 

Devemos manter-nos lúcidos perante essas flutuações. Mesmo que não nos pareçam tão naturais ou fáceis de entender, elas existem. Surgem de mudanças bruscas de atitude do nosso parceiro ou de uma evolução lenta do seu comportamento. Mas uma e outra nos desorientam.

 

Procurar a causa no outro mergulha-nos um rodopio de pensamentos. A mente exacerba as emoções, mas dificulta a sua compreensão. O que está ao nosso alcance, é olharmos para dentro de nós.

 

Após a fase de lua de mel, pode tornar-se difícil ultrapassar as primeiras dificuldades: o sentimento de abandono que nos abala à primeira reação de indiferença, ou mesmo o sentimento de traição perante reações desproporcionadas. No entanto, as ações do outro são também, em geral, guiadas pelo medo.

 

As fissuras: o caso do ciúme e da infidelidade

 

Os desafios não são iguais para todos. Para alguns, questões como a doença ou a educação dos filhos geram instabilidade; para outros, a infertilidade, o desemprego ou os problemas financeiros são fontes de tensão. Esses fatores negativos podem fortalecer a ligação ou criar distanciamento, mas todos eles colocam a confiança à prova.

 

Aqui, abordaremos apenas os desafios mais relevantes, no entanto é possível observar cada caso pelo prisma da confiança/desconfiança.

 

Quando olhamos para a questão do ciúme e da infidelidade, percebemos que ambos nascem, antes de mais, das nossas próprias inseguranças:

 

  • O ciúme reflete as nossas dúvidas e coloca o foco no que não gostamos em nós. Sentimos ciúmes da beleza que atrai a atenção do nosso parceiro ou do carisma daquele colega omnipresente nas suas conversas. Quando projetamos os nossos receios no outro, recorremos a comportamentos controladores que restringem a sua liberdade. No final, desconfiamos dele, quando, de verdade, deveríamos refletir sobre nós, sobre aquele ego que nos faz sentir inadequados, mesmo quando repete frases como: "Não é digno da minha confiança".
     

  • Por outro lado, a infidelidade é frequentemente uma busca de identidade ou uma reação a frustrações acumuladas. Procuramos fora do casal o que não conseguimos encontrar dentro de nós: a valorização ou a coragem para mudanças, como trocar de casa ou de emprego. Essa escolha surge do desejo de novidade e da aparente facilidade de criar conexão quando ainda conseguimos esconder os nossos defeitos.
     

Esses comportamentos extremos refletem necessidades emocionais não resolvidas, pelas quais culpamos o parceiro. Permitir que os nossos medos falem por nós, sem nos questionarmos, equivale a esperar que o outro resolva os nossos problemas. Podemos afastar-nos do que já não nos preenche, mas, inevitavelmente as nossas inseguranças acabarão por reencontrar o seu caminho até nós.

 

A confiança cega

 

Por vezes, uma confiança ingênua instala-se no casal. Acreditamos que nada pode desafiar a relação, que o amor supera tudo. Esta visão, embora reconfortante, pode causar grandes danos. Impede-nos de ver o outro como é, e de mostrar quem somos de verdade. Este tipo de negação pode levar-nos a aceitar comportamentos tóxicos ou ignorar sinais claros de desconforto e mal-estar. Recusamos a autenticidade que o casal exige, construindo assim bases frágeis que facilmente serão abaladas pelo tempo.

 

Reparar as fissuras: a arte do Kintsugi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Kintsugi é uma arte japonesa onde se repara a cerâmica, a porcelana e a faiança, embelezando-as. "Kin" significa "ouro" et "tsugi",  "união " em japonês.

 

 

Apesar das adversidades, muitos casais resistem. Mas o que fazer das fraturas que se criaram?

 

Um vaso rachado nunca mais será o mesmo. A fissura permanece na cerâmica, tal como a desconfiança infiltra a relação após uma traição, seja de que natureza for.

 

No entanto, as cicatrizes podem ser sublimadas. A arte do Kintsugi ensina-nos que, ao reparar sem esconder, transformamos as feridas em força. Ao assumirmos o passado, sem no entanto ficar a remoê-lo, escolhemos o caminho da honestidade e da transparência. Deixamos assim de usar vendas, possibilitando a reconstrução da relação.

 

Pôr-se demasiado em questão

 

A falta de autoconfiança pode manifestar-se de forma mais sorrateira. Por vezes, sentimo-nos seguros em quase todos os aspetos da nossa vida, mas pomo-nos em questão cada vez que existe um desequilíbrio no casal. Se o nosso parceiro fica um silêncio, pensamos nas possíveis palavras que o magoaram, duvidamos da nossa atenção perante os seus medos ou dificuldades. A aceleração mental é descomunal. Diante uma mensagem não respondida, relemos tudo o que foi escrito, e revemos o filme mental da nossa última conversa.

 

Essa necessidade, por vezes inconsciente, de reparar, de assumirmos a responsabilidade por nós e pelo outro, tem origem num trauma provocado na pequena infância: a ferida do abandono.

 

Voltarei a falar das feridas da alma noutro post, mas fica aqui desde já esse apontamento.

 

Se sentes também, com frequência, a síndrome do salvador manifestar-se em ti, é importante olhar para ele. Assumir as nossas falhas é vital para uma relação consciente, sendo mesmo sinonimo de uma grande lucidez, mas devemos compreender que o nosso parceiro também luta contra as dele, que nem tudo, por isso, está nas nossas mãos. Sair do controlo, deixar fluir mais a vida e os acontecimentos, é um objetivo atingível com este trauma. A plena consciência pode ser o primeiro passo a dar nesse caminho.

 

A confiança: um trabalho consciente e partilhado

 

Manter a confiança no casal necessita tempo e diálogo sincero, assim como de duas vontades focadas no mesmo objetivo. Devemos ser capazes de pedir desculpas quando necessário e saber perdoar a si próprio e ao outro. Libertar-nos do peso da culpa permite compreender que a responsabilidade pelo casal pertence a ambos.

 

Se desejamos uma relação que nos dê segurança, cabe-nos proporcionar esse espaço de confiança. É uma tarefa feita em conjunto, como um espelho: ao criar um ambiente sereno e seguro para o outro, criamo-lo também para nós.

 

Chaves para fortalecer a confiança na relação:

 

  • Trabalhar em conjunto: A confiança exige diálogo e cooperação constante.
     

  • Ser honesto e sincero: Partilhar pensamentos e intenções minimiza as eventuais desconfianças do parceiro.
     

  • Promover segurança: Estar atento às necessidades e preocupações do parceiro e ajustar comportamentos sempre que possível, sem, no entanto, cair em sacrifícios.
     

  • Evitar julgamentos precipitados: Uma mudança de comportamento não significa traição, pode simplesmente indicar uma preocupação.
     

  • Reconhecer os próprios medos: Identificar os nossos traumas (abandono, rejeição, traição, humiliação e injustiça) ajuda-nos a entender melhor as nossas reações e as do parceiro.
     

  • Aceitar as flutuações: Momentos de dúvida fortalecem o vínculo desde que sejam encarados como oportunidades, e não como ameaças.
     

  • Evitar o excesso de preocupação: pôr-se constantemente em questão demonstra uma falta de confiança que dificulta o trabalho colaborativo da relação.
     

Lily Blue

 

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