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Amo-te

 

Amo-te.
Estas três palavras deixam-me nua diante de ti. Falam-te do meu passado, do meu presente. Dos meus sonhos.

 

“Amo-te” deveria sempre ser luminoso, leve como a pena de um pássaro, tranquilizante como o som da chuva a cair das folhas. É sol. É calor. É a carícia suave da tua mão na minha pele, o formigueiro gelado nas bochechas numa manhã fria. É tudo e nada. Ao mesmo tempo, simples e complicado.

 

O meu “amo-te“ resvala na tua indiferença. Os teus olhos pousam-se na parede atrás de mim.

Não respondes. Terá, essa pequena frase, o poder de empurrar a porta secreta da tua alma?

Um abismo abre-se dentro de mim. De repente, tenho medo que me deixes, que me esqueças, que já não me ames. Porque não olhas para mim?

 

Quando finalmente as palavras saem da tua boca, perdem o seu sentido, como se dissesses “passa-me o sal”.

 

Sei que o meu “amo-te” deveria preencher-me antes de te preencher a ti. Que deveria amar-me o suficiente para te amar melhor. Às vezes, dizes, em tom de brincadeira, que o amor é como uma pedrinha para ricochetes, não um bumerangue. Acho que, na verdade, falas a sério. Odeias que espere demasiado de ti.


Mas é um presente que te ofereço, uma pequena parte de mim. Talvez um presente não me devesse rasgar as entranhas. De repente, duvido. De mim, do meu próprio valor, da razão pela qual preciso de te ouvir dizer. É como se te gritasse “ama-me!” embora os meus lábios articulem o inverso. Convenço-me que vais preencher este vazio em mim, que só me posso amar no espelho de ti.

 

Há sombras no “amo-te”, não só amor.

Essas sombras são as minhas feridas. Às vezes, sinto que lhes toco ao de leve, mas escapam-me, fogem, escondem-se no mais profundo de mim, onde sabem que não as consigo agarrar. Depois surgem quando não as espero. Como agora.

 

A minha garganta aperta. Os meus olhos humedecem-se.

O medo invade-me enquanto sorris. Vejo imagens na minha cabeça, imagens de mim criança, sozinha num berço, a noite a envolver-me. 

As lágrimas escorrem-me pelo rosto. Já não tenho forças para as conter.
Perguntas-me porque choro. Estás zangado. A frustração abala-me como um tsunami. Opto pela fuga. Prefiro não olhar para ti.

 

Seguro-me para não bater com a porta do quarto.

Não entenderias se te explicasse. Não entenderias porque dói, porque sofro. Porque haverias de entender? Parece que sou obrigada a ser feliz, porque me dão uma vida de sonho. Uma vida maravilhosa no papel, mas onde só vejo falhas. Oh, tu és como eu, apenas a minha aparente felicidade alivia as tuas preocupações. Então, prefiro sorrir, mostrar alegria, mas agora não consigo.

 

No chão do quarto, cravo as unhas nas minhas palmas. Deixo a raiva atravessar-me. Ela empurra as paredes do meu coração, vibra, grita, e de repente, silencia-se. A calma volta dentro de mim. Estremeço.
A crise passou. Ouvi a emoção, aceitei-a plenamente. Não me dominou. Não explodi, não exigi, não te fiz pagar a minha frustração. Os meus lábios esticam-se num sorriso. Desta vez, sou vitoriosa. Este véu sobre a minha alma não voltará. Sei que existem outros, mas sou forte, hei-de derrotá-los, um por um.

Procuro-te no apartamento. Estás onde te deixei, na cozinha. De costas. Os meus braços envolvem a tua cintura, afundo-me entre as tuas omoplatas.


Amo-te.
Desta vez, as palavras soam bem, verdadeiras. Ressoam na minha caixa torácica, fazem-me vibrar como o arco de um violino. As tuas mãos seguram as minhas, apertam-nas com tanta força que receio que as esmagues. É a tua resposta, “eu também”.
Claro como água.

De repente, as tuas declarações fazem eco na minha cabeça: “Volta a casa, faço-te o almoço” / “amo-te “; “esqueceste-te da pasta” / “amo-te “; “comprei bilhetes para aquele concerto que querias ver” / “amo-te”.

Já não sinto as pernas, os pés já não tocam o chão. Levitamos entre o lava-loiças e a mesa desarrumada do pequeno-almoço. Ainda abraçados, tocamos o teto. As paredes não nos vão deter, estamos a caminho da lua, do sol, talvez até da Via Láctea.

 

 

 

Lily Blue

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