
É pelo diálogo que geralmente tudo começa. A voz é, aliás, um elemento de sedução por si só. Depois do primeiro olhar e muito antes do primeiro beijo, as conversas que duram horas, por vezes a noite inteira, abrem a porta para o nosso mundo interior.
Já alguma vez sentiste que podias contar tudo a alguém, mesmo sabendo que não o voltarias a ver? Recordo-me de um rapaz de cabelo castanho. Esqueci-me do rosto, do nome, mas o murmúrio das nossas vozes e o chão gelado, oscilante de um comboio noturno, permanecem para sempre na minha memória. Por que motivo certas ligações são instantâneas? De onde lhes vem essa capacidade de nos marcar tão profundamente, como se, para além dos corpos, dos corações, as almas se reconhecessem?
Poder falar de tudo, trocar ideias sem medo de ser julgado, é uma forma de liberdade absoluta. Oferecemos ao outro bocadinhos de nós, o timbre da nossa voz e a proximidade dos nossos corpos expressam o resto. Ouvir, por sua vez, as histórias que nos conta, segui-lo nas suas aventuras enquanto partilha as suas memórias, faz-nos parecer que o conhecemos desde sempre.
Não sei se concordas comigo, mas o ideal seria manter esse hábito no casal. Com a empatia que demonstramos e a vulnerabilidade que revelamos nos primeiros tempos, compreendemo-nos quase sem palavras. No entanto, muitas vezes, a conexão acaba por esmorecer e perder-se. Estilhaça-se contra as muralhas que começamos a erguer quando da primeira discussão, da primeira desilusão.
E se fossemos capazes de preservar a nossa alma de criança na relação?
Os inícios são normalmente marcados por esta cumplicidade quase instintiva, baseada numa confiança inata. Esta fase é sustentada, em parte, por uma hormona chamada oxitocina. Acreditar que durará para sempre não é lá muito realista. Contudo, para além da biologia, cabe-nos nutrir o laço, fazê-lo crescer e fortalecer. De todas as formas que existem para o conseguir, o diálogo continua a ser a mais acessível e eficaz. Ao mantermos esta capacidade de nos conectarmos ao outro, de lhe falarmos do coração, mantemos o canal de comunicação aberto.
A ideia é integrar esta prática na nossa rotina, tal como o beijo de despedida ou de cumprimento quando do regresso à casa. E se, diariamente, guardássemos pelo menos cinco minutos para conversar?
Falar, mesmo quando não há nada de especial para dizer, seja contar como correu o dia, ou tagarelar sobre os nossos medos e sonhos, gere intimidade e reforça a confiança mútua. Durante a semana, a maioria dos casais só se encontra no final do dia. É crucial, nas poucas horas que passamos juntos, alimentar esta comunhão, apostando na partilha de ideias e na interação. Não precisamos de validação para tomar uma decisão, seja pessoal ou profissional, mas é tão bom ter alguém com quem refletir em voz alta. Falar de coração aberto com o parceiro é como dialogar consigo próprio: as ideias tornam-se mais claras, o stress abranda.
Salientar a importância da comunicação num casal pode parecer óbvio, mas mais do que palavras, o importante é permitir que as emoções se expressem, mostrando a nossa verdadeira essência, sem máscaras ou artifícios. Devemos manter-nos atentos nesses preciosos momentos, pois é a alma que se expressa.
Falar com coração deve ser praticado com uma escuta ativa e empática e, sobretudo, sem moderação.

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